segunda-feira, 6 de junho de 2011
quinta-feira, 26 de maio de 2011
Já faz dois anos que vovó veio morar comigo no apartamento que ficou pra mim e eu acho que não consigo mais me imaginar sem a velha do meu lado. Ela tem 76 anos e ainda tem bastante gás, gosta de viver, não é de se entregar. Às vezes eu fico pensando nela, nessa barra toda que ela sempre passou e fica difícil acreditar que todo mundo saiu dela. Se bem que até que meus dois tios são bem equilibrados, tem pé no chão, não gastam muito e ajudam as esposas no que podem (eu não tenho muito contato com elas, não sei, não me simpatizo muito). Todo domingo eles vem aqui e a levam pra comer fora. Logo vovó, que adora um franguinho. Fica toda feliz, se entope do perfume que eu dei no dia das mães e sempre arranja uma bolsa nova pra usar (aqui, na saída do prédio, um coroa vende umas bolsas de correntinha, de todas as cores possíveis, metade do dinheiro dela vai nas bolsas todo santo mês). Passo, então, meus domingos corrigindo os deveres de casa dos meus alunos ou me forçando a dormir. Me alivia saber que ela tem carinho dos filhos, essa coisa de cuidado mesmo, de chegar numa etapa da vida e... Mesmo assim, ela sempre volta cabisbaixa, dando muxoxos pelos cantos e fica vendo tevê sentada de banda, olhando pela janela. Nem mesmo tira a roupa, só deixa a bolsa na cadeira da cozinha e desfaz o rabo de cavalo, já ralo. Nunca perguntei o que a deixa assim, todo santo domingo. Não me intrometo muito porque tenho medo que nossa relação, que é tão delicada e cheia de gentilezas, sofra algum abalo (vovó às vezes mostra, sem que a gente peça, que tem o sangue da família). Nem sei o que me acontece se ela se for.
sábado, 21 de maio de 2011
as primeiras enchentes

foi paixão fulminante a primeiro vento de frio. eu queria tocá-lo, abraçá-lo com força, respirá-lo. de todas as vias ele me chegava em impacto, sem espaços, sem sobras. era presença constante, água no corpo, razão a mais, de todo. sempre que chegava eu levantava uma persiana com dedo e o fitava desiludidamente, a passos lentos e decididos. ele (eu absorvendo tudo) era homem de bocas abertas, de tardes, de escapadas da vida aturdida que eu criei para mim e insistia em levar lá nos tempos idos de 1987.
(fotografia do artista norte-americano Fazal Sheikh)
sexta-feira, 20 de maio de 2011
não posso mais me referir aos outros nem me dirigir a eles todos já que tudo é sempre uma penúria doída doída valei-me meu bom deus uma vontade de passar no mercado e comprar logo um quilo de café daquele que lançaram mês passado Com açúcar ou adoçante? Minha filha prefere com adoçante vive dizendo que é gorda gorda gorda grande quem sabe passo em casa e vejo as roupas que ela precisa para o retiro A casa anda tão mão cuidada Precisa de tinta em cada parede valei-me meu bom deus todos os funcionários passam aqui na cozinha e pedem o café quentinho preciso fazer sempre a cada duas horas logo eu que nem bebo café direito Gosto de um dedinho de leite quente e pode ser em pó mas aí é só uma colher mas da colher grande valei-me meu bom deus A Janice do setor das roupas certinhas andam todos sempre de preto vive bebendo é outra que se acha gorda e pede café descafeinado enquanto toca a mesma música para dançar no computador dela mas acho que tem um outro senhor que usa o computador valei-me meu bom deus ela me disse que se pode achar várias fotos da lídia brondi na internet é tanta coisa que se pode como esse tempo anda rápido
sexta-feira, 29 de abril de 2011
nöntanto
de todas as ruas que cirdundam a tua
casa
correm garotos festeiros alegres com a tua
vinda
no entanto nem eu nem ninguém falamos a tua
língua
logo
danço e dançam ao teu redor sem jamais te
tocar
e passas apartada
casa
correm garotos festeiros alegres com a tua
vinda
no entanto nem eu nem ninguém falamos a tua
língua
logo
danço e dançam ao teu redor sem jamais te
tocar
e passas apartada
quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011
quarta-feira, 15 de dezembro de 2010
sábado, 11 de dezembro de 2010
um sorriso mal dado aberto errado como quem não abre a boca querendo sorrir e sorri com a memória de toda uma vida vivida de banda todos esses anos colocando o ombro na frente antes de entrar com corpo todo numa sala levando muito tempo para deixar o resto entrar
a boca involuntária com todas as ruguinhas de canto abre fecha delicadamente e vocifera com calma gotinhas de cuspe cheiro forte de comida e resto
sopradas suaves (nem tão leves assim) no pescoço de quem teima em ficar na frente
e a boca sorriso não fecha nunca
a boca involuntária com todas as ruguinhas de canto abre fecha delicadamente e vocifera com calma gotinhas de cuspe cheiro forte de comida e resto
sopradas suaves (nem tão leves assim) no pescoço de quem teima em ficar na frente
e a boca sorriso não fecha nunca
quarta-feira, 8 de dezembro de 2010
sobedesce

todo dia na praça da rua debaixo ela aparecia com as duas tias solteironas de guarda olho bem aberto que menina na sua idade levanta os olhos desses velhos sem vergonha cheios de cachaça é o mal desse lugar todos eles ficam assim depois que se aposentam se lembra do osmar acabou com a família toda e eu de longe ensaiando vagar espaço na gangorra do meio pra subir e descer com ela bem devagarzinho sempre fui muito alto meus pés tocam no chão de areia comigo no meio do êxtase do alto ela com as pernas esticadas quase até o eixo do brinquedo só segurando sem muita firmeza a alça enferrujada e as tias gritando sai dessa gangorra que se você se machuca é todo mundo correndo pro posto injeção de tétano é cara menina elas não devem ter a mínima noção do que é falta de injeção quando o ser humano mais precisa de uma bem no meio do cu depois de ver os caras que a gente passa meses juntos revezando lugar pra dormir falando sonhando querendo com toda a urgência do mundo ver logo a menina da praça a mulher com o filho que eu nunca viu só eu falei que você ia se machucar menina ainda bem que não feriu com força vem cá muleque quantos anos você tem vou fazer dezoito dia dezenove é eu vi que você já é bem grandinho sim mas nem barba na merda dacara você tem mas eu tenho cabelo em cima do pau suas velhas escrotas gordas e mal comidas mas não podia falar essa besteira pensei até que a menina tivesse ouvido fez cara de surpresa daquelas ruins que pegam a gente sem jeito como o ataque bem no meio da madrugada alta é tanto barulho que começa de longe e fica alto demais ziiiuuummm paaaaaaaaa eu vejo hoje depois de tantos anos a morte vir fazer carinho em mim na menina e naquelas duas tias inconvenientes que devem estar lutando no inferno pra saber quem vai ficar com a gangorra do meio, devidamente enferrujada
terça-feira, 16 de novembro de 2010
Farnese de Andrade




Continuando a sessão "artistas de minha vida", quase uma sessão nostalgia, posto algumas fotos das minhas obras desse artista mineiro, já falecido, chamado Farnese de Andrade. São relicários e altares feitos, pricipalmente, com bonecas e objetos pessoais do artista. Lembro que foi um grande choque ver esses objetos de perto. Eles têm um quê de sagrado, um quê de profano... são meio eróticos também. Torcendo com força para que eles voltem ao Rio em algum momento.
Klavdij Sluban




Mais uma vez, neste blog, falo do fotógrafo esloveno/francês Klavdij Sluban. Eu sou estranhamente encantado com as fotografias deles, sobretudo pela série dos Bálcãs. As pessoas nas fotos são como que aparições fantasmáticas, tem-se a impressão que elas não foram fotografadas. Os espaços, em certas fotos, também parecem não existir, mas serem apenas uma "pasta" mal feita do lugar. Lugares fotografados antes de suas mortes. Trânsito.
não se pode respirar dentro d'água #5

acordo hoje com uma lufada de vento frio encostando minha casa
não tem ninguém cantando no mar por volta dessa hora
um amontoado lúcido de algumas pessoas andando em círculos na areia perto da água
o homem com roupa de jogging desta vez passando de bicicletaligeira
é muito mar para atravessar e não chegar a lugar nenhum (algumas horas mais tarde)
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segunda-feira, 8 de novembro de 2010
não se pode respirar dentro d'água #4
o CD da cantora favorita tocando no player da sala
fez a moça sentir saudade da casa do pai
que gostava muito de ouvir a tal cantora
a casa inteira ouvia e só faltava dar pulinhos de êxtase
mas aí veio a grande inundação de 86
os rios sabem quando tem coisa boa pra levar até a foz
fez a moça sentir saudade da casa do pai
que gostava muito de ouvir a tal cantora
a casa inteira ouvia e só faltava dar pulinhos de êxtase
mas aí veio a grande inundação de 86
os rios sabem quando tem coisa boa pra levar até a foz
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não se pode respirar dentro d'água
não se pode respirar dentro d'água #3

duas ou três brincadeirinhas bobas na beira da piscina
sem deixar o corpo tocar a água que teimava, teimosa,
em lembrá-los que seu contato com papel só servia para
desmanchá-lo todinho e que sua presença ininterrupta
ao lado de terrenos cimentados produz um musgo
de cheiro forte, desagradabilíssimo
corpo deita e rola debaixo do sol forte do verão alto
até que o calor seja forte o suficiente para jogá-los
de mala e cuia e amor ligeiro dentro da piscina azul,
imitando a cor que a água teima em fazer, teimosa,
quando se junta com outras águas.
[dos dois saiu mais um poema ondaleva ondatraz]
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domingo, 7 de novembro de 2010
não se pode respirar dentro d'água #2

acordei assustado quarta-feira passada
com o vento forte no rosto e uma forte sensação de déjà vu
estava sobrevoando uma floresta de águas claras
depois da soneca da tarde
(eu tiro essa soneca desde que comecei a trabalhar)
a floresta não terminava nunca mas depois percebi
que ela tinha a extensão de umas três horas de voo ligeiro
quando acordei a mata acabava no rio largo
das tais águas mansas que minha avó sempre falava,
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não se pode respirar dentro d'água
não se pode respirar dentro d'água #1

do mar pretoasfalto da noite
veio cheiro de música longe
e sal
mar cinzaaldeia cheio de cores escondidas
e gente andando
solo do mar profundo
mar redondo e revolto:
traz minhas pessoas
que desaguam no teu rio
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segunda-feira, 1 de novembro de 2010
Há quem prefira urtigas

Acabo de ler e me emocionar muito com uma novela do escritor japonês Junichiro Tanizaki, falecido em 1965, entitulada "Há quem prefira urtigas" (Companhia das Letras). O livro, de enredo aparentemente simples, me lembrou inúmeras questões que eu fui deixando para trás na minha pouca vida ainda, daquelas que você não entende porque deixou para trás. Felizmente ou infelizmente, esse texto veio a calhar.
Ao esclarecer o enredo, antes de mais nada, é preciso fazer algumas considerações pessoais sobre meu contato com o Japão:
Quando as pessoas falam sobre cultura japonesa, o que primeiro vem à mente são os mangás e animes, os super-heróis bizarros e o karaokê. Apesar de não ser um pesquisador profundo da história e cultura japonesas, sempre que me lembro deste país, são as imagens plácidas dos filmes do Ozu que primeiro surgem na mente. Com algum esforço, aparecem as imagens dos dançarinos de butô, com seus movimentos singelos, orgânicos e cheios de significado. Acompanhando tudo isso, me chegam "Ninguém pode saber", o fantástico filme do Hirokazu Kore-Eda, as cerejeiras, a chuva torrencial de "Shara", de Naomi Kawase, a fúria do Monte Fuji de um dos episódios de "Sonhos", enfim, imagens, conceitos e preconceitos com raízes profundas no cinema produzido lá.
Vale salientar que, somado a todos esses filmes e espetáculos teatrais, vem uma profunda incompreensão do que poderia ser um elo geral que uniria todas essas estórias, uma característica, marca, ideia, que pudesse me colocar em contato mais íntimo com a forma de pensar e viver japonesa.
Não foi diferente ao lidar com "Há quem prefira urtigas". Quando o livro veio parar nas minhas mãos, minha primeira reação foi de repúdio pois eu considerei ser praticamente impossível uma tradução que desse conta de toda a complexidade de significado da língua japonesa, ainda mais numa obra literária. Pensei que todas as nuances características de um romance ficariam apagadas, embotadas e que o contato de qualquer leitor que não tivesse o mínimo de conhecimento do Japão seria extremamente superficial.
Para a minha grande surpresa, isto não se deu. Mesmo não conhecendo absolutamente nada do idioma japonês, percebi que houve um primoroso trabalho de tradução por parte de Leiko Gotoda, ao tentar com sucesso algumas aproximações entre o japonês e o português. Em algumas passagens, porém, fica uma sensação de "acho que não foi bem isso que ele escreveu", como num trecho no qual Tanizaki descreve o penteado de Ohisa, a amante do pai de Misako, e lemos que a moça prendeu o cabelo da forma "que os japoneses fazem". Aliás, eu acabei me esquecendo de falar mais detalhadamente sobre o livro.
Para a minha grande surpresa, isto não se deu. Mesmo não conhecendo absolutamente nada do idioma japonês, percebi que houve um primoroso trabalho de tradução por parte de Leiko Gotoda, ao tentar com sucesso algumas aproximações entre o japonês e o português. Em algumas passagens, porém, fica uma sensação de "acho que não foi bem isso que ele escreveu", como num trecho no qual Tanizaki descreve o penteado de Ohisa, a amante do pai de Misako, e lemos que a moça prendeu o cabelo da forma "que os japoneses fazem". Aliás, eu acabei me esquecendo de falar mais detalhadamente sobre o livro.
"Há quem prefira urtigas" trata da vida de Misako e Kaname, um casal típico do Japão dos anos 30, que há muito tempo não se ama mais. Eles tomam a decisão de se separar de forma pacífica. Mas alguns obstáculos se colocam diante deles: o filho Hiroshi, que já mostra sofrer com o claro distaciamento dos pais; o pai de Misako, um ancião entusiasta do teatro Bunraku; e acima de tudo, a própria covardia do casal. Misako já tem um amante, Aso, e também toda uma vida sexual e afetiva com ele. Kaname encontra-se com Louise, uma prostituta polonesa, e a promete tirar da vida no bordel para começarem uma nova vida juntos. Entretanto, Misako tem medo de que Aso a abandone com o tempo e Kaname receia que Louise pegue seu dinheiro e volte para a Europa. A personagem que aparece para empurrar o casal para uma decisão sensata e corajosa é o tio Takanatsu, japonês que vive na China e tem mais contato com o mundo ocidental, uma espécie de anjo exterminador que modifica a vida de todo mundo.
O romance me lembrou demais as peças de Tchekov, já que Misako e Kaname são duas pessoas paralisadas pela covardia e pela própria inércia de suas vidas. Eles são incapazes de dar um passo a frente e suas decisões são tomadas com extrema racionalidade, medindo todas as consequências possíveis. Parecem as três irmãs que nunca irão a Moscou. E eu toco no assunto do teatro neste ponto, porque a novela inteira é permeada por idas a apresentações do teatro Bunraku, o famoso teatro de bonecos japonês. Nesta modalidade teatral, os bonecos são manipulados por, em média, três pessoas, e contam geralmente fortes histórias de amor em forma poética, o joruri, que são cantadas pelo tayu ao som do shamisen. Era uma arte já em decadência no Japão do começo do século 20, já que o país estava começando um processo de ocidentalização dos costumes. E isto é muito bem retratado no romance. As apresentações contam com a presença de poucas pessoas na platéia e Kaname diz conhecer muito pouco desse tipo de teatro.
Mas o que me chamou mais atenção é que, da mesma forma que os bonecos, que obviamente não têm vida própria, ganham vida nas mãos dos zukai (manipuladores), as personagens também parecem movidas por uma força estranha, exterior a eles, e essa força, essas mãos que os seguram, parecem sair do corpo deles em alguns momentos, fazendo os bonecos humanos perderem a vida e cairem no palco, sem ter mais nada a dizer e cantar.
Mas por que a separação era tão difícil? Afinal, já não eram duas criancinhas indefesas... Por que temiam pôr em prática o que a razão apontava como melhor? Pensando bem, era apenas uma questão de romper os laços com o passado. A tristeza seria momentânea e diminuiria com o tempo, conforme viam acontecer com outras pessoas. "Nós dois não tememos o que nos reserva o futuro, e sim o momento da separação", concluíram com um sorriso.
Não vou ficar falando sobre o efeito que este livro teve sobre mim, mas, dependendo da forma como ele é lido, pode funcionar como um baita soco na cara.
Para quem quiser ter uma ideia de como é o teatro Bunraku, um vídeo que achei no youtube, com algumas explicações inciais sobre a arte:
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sexta-feira, 1 de outubro de 2010
Lo que mas quiero - Festival do Rio 2010

Em O que mais quero (Lo que mas quiero, Delfina Castagnino, Argentina, 2009), uma jovem passa uma temporada na casa de uma amiga com a qual ela só mantinha um relacionamento à distância, no interior da Argentina. Esta última acabou de perder o pai e sofre silenciosamente com a saudade e a solidão. A primeira está passando por dificuldades no relacionamento com o noivo e precisava de um tempo para pôr a cabeça no lugar. Este é o mote simples e sincero do filme, mas o que o tornou uma obraprima particular tem a ver com a sua estrutura e também duas cenas capitais.
Na primeira cena, as duas meninas estão de costas para a câmera, contemplando um grande lago, e conversam sobre trivialidades e também sobre qual seria a duração ideal para um relacionamento. Após Maria, a jovem de fora, dizer que seu namoro tem quatro anos, Pilar, a jovem que perdeu o pai, diz que esse tempo todo é impensável, isso seria uma eternidade para a cabeça dela. Em outro momento, Maria está encostada num carro conversando com um rapaz que conheceu numa festa e, mais uma vez, os dois conversam sobre coisas sem muita importância, ou, na verdade, importantíssimas para aquele momento, já que os dois estão se conhecendo e talvez vão começar um namoro. Vale aqui dizer, que essas duas cenas bem longas e pontuadas por silêncios longos também, ao mesmo tempo que recheadas com aquele feel good tão característico dos filmes do Apichatpong, transportando-nos sem grandes dificuldades para o espaço do filme, mesmo que o espectador não se identifique diretamente com o que está acontecendo na tela.
Porém, as cenas mais importantes do filme são duas cenas que se transformam em um eixo de significado para o filme. Em um momento, Maria liga para seu namorado em Buenos Aires. Ela está andando por uma mata escura e de repente para de caminhar. Não sabemos o que ele está dizendo para ela, mas em muitos momentos ela hesita em responder e, no final, esboça um choro que não acontece. Mais a frente, Pilar está reunida com os trabalhadores da madeireira do seu pai falecido, justamente para resolver com eles as pendengas trabalhistas. Não vemos os trabalhadores reunidos, apenas o rosto de Pilar que repete uma fala, decorada, sobre como ela sente não poder dar continuidade ao trabalho deles e que ela pagaria tudo o que lhes fosse de direito. Nenhum trabalhador parece se importar muito com a situação, já que todos dizem sentir muito a perda do pai de Pilar e que a menina poderia contar com eles para o que fosse necessário. Pilar, ao ouvir a declaração de um desses homens, chora discretamente, e continua a repetir a sua fala treinada para os outros. Estas duas cenas foram filmadas com a câmera bem próxima dos rostos das atrizes e elas são os dois momentos do filme nos quais o que passou e o que não volta mais vem à tona, os dois motivos de perda e desnorteamento são exibidos, são expurgados. A partir destes dois momentos, só resta olharem para um futuro que parece não acenar para elas e o passado vai ficando cada vez mais turvo, estranho, um desconhecido. Elas não se reconciliam com esse passado próximo, justamente por estar muito perto delas.
Só resta agora o presente, o momento, o instantâneo para elas. E isto não se resolve no filme através de uma busca inconseqüente de momentos de prazer, mas elas simplesmente andam pelas florestas, sentam no chão e brincam com gravetos, tomam cerveja, pulam dos rochedos em direção ao mar. É impossível o espectador não conseguir entrar naquilo, naqueles tempos mortos, naquele ultrarealidade do tempo alongado, impondo a experiência dele, tão-somente dele. Delfina Castagnino fez um dos filmes mais sinceros que já vi, apesar do tema ser tão batido. Um sopro de vida. Imagens que vão pulsar na minha cabeça por um bom tempo.
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sexta-feira, 30 de julho de 2010
petit bonheur #3
Entra logo no carro que eu prometi pra ela estar lá no máximo às sete.
Peraí, deixa eu pegar meus óculos.
Então anda.
Me dá a chave então, como você quer que eu pegue meus óculos se a porta está trancada?
Toma. Corre.
(...)
Merda, vou ter que parar naquele posto. Tô ficando zerada.
(...)
Vou trocar esse CD hein. Tá foda ouvir sempre essa mulher, com essa voz insuportável.
Tá, faz o que você quiser. Aliás, vou parar mais pra cá que to azul de fome também.
Traz um café pra mim.
(...)
Você deixou de trazer o café pra demorarmos mais tempo aqui nessa porra ou só pra me irritar mesmo? Aliás, a primeira opção fatalmente leva à segunda. Fatalmente.
(...)
Você não vai mesmo falar nada? (...) Vem cá porra, eu não sou homem que gosta de ser tratado feito uma criancinha de colo por mulher nenhuma, você tá me ouvindo? Qual é? Você acha que...
Desce do carro.
Ah, peraí Ísis, vai se foder, para de babaquice.
Eu vou parar o carro ali na frente e você vai descer calmamente, vai gritar as merdas que você quiser, mas vai ser do lado de fora desse caro, você entendeu bem? Não quero ter de repetir isso.
É aquela tua amiga né? Eu sabia, o Lucas já tentou abrir meu olho uma porrada de vezes e eu pagando de babaca pra vocês duas. Vem cá, o que aquela vagabunda tá fazendo com você hein?
Fala, fala porra!
Carlos, eu acho melhor você me soltar.
Não solto enquanto você não falar, outra vagabundazinha, quem diria hein Ísis? Se prestando a...
Carlos, eu já falei, me solta.
Para de gritar sua fulaninha de merda. Diz logo, hein, fala!
(...)
Mas que...
(...)
Para com isso cara, para...
(...)
O Carlos tá sim lá em cima, ele tá meio mal ainda, mas já tá conseguindo falar.
(...)
A porta tá aberta, pode entrar, Ísis.
Oi.
Oi.
Como é que você tá?
Eu tô.
Sério, Carlos, como estão as coisas? Você tá conseguindo se virar bem?
Você não consegue um segundo que seja na sua agenda apertada pra apenas começar a fazer o
grande esforço de mudar?
Olha só, se ficar...
Desculpa, desculpa, não vai não. Eu sou um babaca mesmo, to sempre reclamando. Ainda mais agora... Mas eu to bem, quer dizer, já to falando pelos cotovelos, como você pode ver.
Isso é bom.
É sim.
Tá tudo bem na agência?
Carlos, não precisa. Fica tranqüilo.
Escuta, eu sinto muito tua falta. Você não faz idéia. Essa cama tem seu cheiro ainda, parece que
você ainda dorme aqui todo dia.
(...)
Eu vou ligar pro Carlos então, espera um minuto.
Peraí, quem é Carlos?
Eu já falei um milhão de vezes o nome dele aqui, Rafa. Não vem com essa agora.
Claro, claro. Não sei o que me deu agora, por um segundo eu tinha esquecido o nome dele.
Desculpa.
(...)
Abaixa um pouco o som da tevê, não to conseguindo te escutar.
A Joana deve ser meio surda, só pode ser, me dá um segundo.
(...)
Bonito, esse Rafael.
É, ele é bem bonito mesmo.
Ele tem quantos anos mesmo?
Carlos, não tem mais razão pra você começar com isso de novo. Passou, cara, passou. Eu estou te recebendo na minha casa, o que mais você quer que eu faça?
Você não vai esquecer nunca daquela merda?
Que merda? Eu já me esqueci dessa tal “merda”. Passou, mesmo.
Eu te conheço Ísis, te conheço muito bem. Se você tomar um gole de vinho, você se descontrola. Eu não sei que diabo eu to fazendo aqui, ainda por cima, expondo a Joana à isso. Eu sei que você vai acabar gritando.
Gritar o quê? Que você tentou me matar naquela porra daquele carro? Se controla você, cara! Eu não quero foder com tua vida, mais do que você tentou foder com a minha.
Tá, chega.
Chega mesmo.
Você sabe que...
Me solta Carlos.
...eu preciso muito de você. As coisas tão sem graça, eu não vou pra cama com ela há duas semanas, não consigo.
Carlos, pára com isso, senão eu chamo o Rafa.
Fica comigo, Ísis, já passou tanto tempo e você sabe que eu mudei.
Carlos...
Porra, fica comigo.
(...)
Rafael, aqui é a Joana, ex-namorada do Carlos. Eu sei que não é hora de tocar nesse assunto, mas se você quiser me encontrar, liga pra minha casa. Eu acho que sei onde você pode encontrar ele e eu não vou ferrar com tudo que eu planejei pra mim mesma carregando isso. Vou ficar aqui o dia todo. Tchau.
Peraí, deixa eu pegar meus óculos.
Então anda.
Me dá a chave então, como você quer que eu pegue meus óculos se a porta está trancada?
Toma. Corre.
(...)
Merda, vou ter que parar naquele posto. Tô ficando zerada.
(...)
Vou trocar esse CD hein. Tá foda ouvir sempre essa mulher, com essa voz insuportável.
Tá, faz o que você quiser. Aliás, vou parar mais pra cá que to azul de fome também.
Traz um café pra mim.
(...)
Você deixou de trazer o café pra demorarmos mais tempo aqui nessa porra ou só pra me irritar mesmo? Aliás, a primeira opção fatalmente leva à segunda. Fatalmente.
(...)
Você não vai mesmo falar nada? (...) Vem cá porra, eu não sou homem que gosta de ser tratado feito uma criancinha de colo por mulher nenhuma, você tá me ouvindo? Qual é? Você acha que...
Desce do carro.
Ah, peraí Ísis, vai se foder, para de babaquice.
Eu vou parar o carro ali na frente e você vai descer calmamente, vai gritar as merdas que você quiser, mas vai ser do lado de fora desse caro, você entendeu bem? Não quero ter de repetir isso.
É aquela tua amiga né? Eu sabia, o Lucas já tentou abrir meu olho uma porrada de vezes e eu pagando de babaca pra vocês duas. Vem cá, o que aquela vagabunda tá fazendo com você hein?
Fala, fala porra!
Carlos, eu acho melhor você me soltar.
Não solto enquanto você não falar, outra vagabundazinha, quem diria hein Ísis? Se prestando a...
Carlos, eu já falei, me solta.
Para de gritar sua fulaninha de merda. Diz logo, hein, fala!
(...)
Mas que...
(...)
Para com isso cara, para...
(...)
O Carlos tá sim lá em cima, ele tá meio mal ainda, mas já tá conseguindo falar.
(...)
A porta tá aberta, pode entrar, Ísis.
Oi.
Oi.
Como é que você tá?
Eu tô.
Sério, Carlos, como estão as coisas? Você tá conseguindo se virar bem?
Você não consegue um segundo que seja na sua agenda apertada pra apenas começar a fazer o
grande esforço de mudar?
Olha só, se ficar...
Desculpa, desculpa, não vai não. Eu sou um babaca mesmo, to sempre reclamando. Ainda mais agora... Mas eu to bem, quer dizer, já to falando pelos cotovelos, como você pode ver.
Isso é bom.
É sim.
Tá tudo bem na agência?
Carlos, não precisa. Fica tranqüilo.
Escuta, eu sinto muito tua falta. Você não faz idéia. Essa cama tem seu cheiro ainda, parece que
você ainda dorme aqui todo dia.
(...)
Eu vou ligar pro Carlos então, espera um minuto.
Peraí, quem é Carlos?
Eu já falei um milhão de vezes o nome dele aqui, Rafa. Não vem com essa agora.
Claro, claro. Não sei o que me deu agora, por um segundo eu tinha esquecido o nome dele.
Desculpa.
(...)
Abaixa um pouco o som da tevê, não to conseguindo te escutar.
A Joana deve ser meio surda, só pode ser, me dá um segundo.
(...)
Bonito, esse Rafael.
É, ele é bem bonito mesmo.
Ele tem quantos anos mesmo?
Carlos, não tem mais razão pra você começar com isso de novo. Passou, cara, passou. Eu estou te recebendo na minha casa, o que mais você quer que eu faça?
Você não vai esquecer nunca daquela merda?
Que merda? Eu já me esqueci dessa tal “merda”. Passou, mesmo.
Eu te conheço Ísis, te conheço muito bem. Se você tomar um gole de vinho, você se descontrola. Eu não sei que diabo eu to fazendo aqui, ainda por cima, expondo a Joana à isso. Eu sei que você vai acabar gritando.
Gritar o quê? Que você tentou me matar naquela porra daquele carro? Se controla você, cara! Eu não quero foder com tua vida, mais do que você tentou foder com a minha.
Tá, chega.
Chega mesmo.
Você sabe que...
Me solta Carlos.
...eu preciso muito de você. As coisas tão sem graça, eu não vou pra cama com ela há duas semanas, não consigo.
Carlos, pára com isso, senão eu chamo o Rafa.
Fica comigo, Ísis, já passou tanto tempo e você sabe que eu mudei.
Carlos...
Porra, fica comigo.
(...)
Rafael, aqui é a Joana, ex-namorada do Carlos. Eu sei que não é hora de tocar nesse assunto, mas se você quiser me encontrar, liga pra minha casa. Eu acho que sei onde você pode encontrar ele e eu não vou ferrar com tudo que eu planejei pra mim mesma carregando isso. Vou ficar aqui o dia todo. Tchau.
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