Entra logo no carro que eu prometi pra ela estar lá no máximo às sete.
Peraí, deixa eu pegar meus óculos.
Então anda.
Me dá a chave então, como você quer que eu pegue meus óculos se a porta está trancada?
Toma. Corre.
(...)
Merda, vou ter que parar naquele posto. Tô ficando zerada.
(...)
Vou trocar esse CD hein. Tá foda ouvir sempre essa mulher, com essa voz insuportável.
Tá, faz o que você quiser. Aliás, vou parar mais pra cá que to azul de fome também.
Traz um café pra mim.
(...)
Você deixou de trazer o café pra demorarmos mais tempo aqui nessa porra ou só pra me irritar mesmo? Aliás, a primeira opção fatalmente leva à segunda. Fatalmente.
(...)
Você não vai mesmo falar nada? (...) Vem cá porra, eu não sou homem que gosta de ser tratado feito uma criancinha de colo por mulher nenhuma, você tá me ouvindo? Qual é? Você acha que...
Desce do carro.
Ah, peraí Ísis, vai se foder, para de babaquice.
Eu vou parar o carro ali na frente e você vai descer calmamente, vai gritar as merdas que você quiser, mas vai ser do lado de fora desse caro, você entendeu bem? Não quero ter de repetir isso.
É aquela tua amiga né? Eu sabia, o Lucas já tentou abrir meu olho uma porrada de vezes e eu pagando de babaca pra vocês duas. Vem cá, o que aquela vagabunda tá fazendo com você hein?
Fala, fala porra!
Carlos, eu acho melhor você me soltar.
Não solto enquanto você não falar, outra vagabundazinha, quem diria hein Ísis? Se prestando a...
Carlos, eu já falei, me solta.
Para de gritar sua fulaninha de merda. Diz logo, hein, fala!
(...)
Mas que...
(...)
Para com isso cara, para...
(...)
O Carlos tá sim lá em cima, ele tá meio mal ainda, mas já tá conseguindo falar.
(...)
A porta tá aberta, pode entrar, Ísis.
Oi.
Oi.
Como é que você tá?
Eu tô.
Sério, Carlos, como estão as coisas? Você tá conseguindo se virar bem?
Você não consegue um segundo que seja na sua agenda apertada pra apenas começar a fazer o
grande esforço de mudar?
Olha só, se ficar...
Desculpa, desculpa, não vai não. Eu sou um babaca mesmo, to sempre reclamando. Ainda mais agora... Mas eu to bem, quer dizer, já to falando pelos cotovelos, como você pode ver.
Isso é bom.
É sim.
Tá tudo bem na agência?
Carlos, não precisa. Fica tranqüilo.
Escuta, eu sinto muito tua falta. Você não faz idéia. Essa cama tem seu cheiro ainda, parece que
você ainda dorme aqui todo dia.
(...)
Eu vou ligar pro Carlos então, espera um minuto.
Peraí, quem é Carlos?
Eu já falei um milhão de vezes o nome dele aqui, Rafa. Não vem com essa agora.
Claro, claro. Não sei o que me deu agora, por um segundo eu tinha esquecido o nome dele.
Desculpa.
(...)
Abaixa um pouco o som da tevê, não to conseguindo te escutar.
A Joana deve ser meio surda, só pode ser, me dá um segundo.
(...)
Bonito, esse Rafael.
É, ele é bem bonito mesmo.
Ele tem quantos anos mesmo?
Carlos, não tem mais razão pra você começar com isso de novo. Passou, cara, passou. Eu estou te recebendo na minha casa, o que mais você quer que eu faça?
Você não vai esquecer nunca daquela merda?
Que merda? Eu já me esqueci dessa tal “merda”. Passou, mesmo.
Eu te conheço Ísis, te conheço muito bem. Se você tomar um gole de vinho, você se descontrola. Eu não sei que diabo eu to fazendo aqui, ainda por cima, expondo a Joana à isso. Eu sei que você vai acabar gritando.
Gritar o quê? Que você tentou me matar naquela porra daquele carro? Se controla você, cara! Eu não quero foder com tua vida, mais do que você tentou foder com a minha.
Tá, chega.
Chega mesmo.
Você sabe que...
Me solta Carlos.
...eu preciso muito de você. As coisas tão sem graça, eu não vou pra cama com ela há duas semanas, não consigo.
Carlos, pára com isso, senão eu chamo o Rafa.
Fica comigo, Ísis, já passou tanto tempo e você sabe que eu mudei.
Carlos...
Porra, fica comigo.
(...)
Rafael, aqui é a Joana, ex-namorada do Carlos. Eu sei que não é hora de tocar nesse assunto, mas se você quiser me encontrar, liga pra minha casa. Eu acho que sei onde você pode encontrar ele e eu não vou ferrar com tudo que eu planejei pra mim mesma carregando isso. Vou ficar aqui o dia todo. Tchau.
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sexta-feira, 30 de julho de 2010
quarta-feira, 28 de julho de 2010
petit bonheur #2
Oi, quanto tempo, nem tinha te visto por aí, sentadinha.
...Triste né? Olha só.
Nem me fala. Nem acreditei quando a Soninha me falou, ontem.
Daqui a pouco é... Melhor deixar pra lá. Como é que tá sua mãe? Eu falei com ela semana passada, por telefone, ela me pareceu tão triste. Ainda tá com aquele problemão todo lá na justiça?
Ela tá bem sim, mas meu irmão tá cuidando de tudo bem, acho que até final do mês que vem, é, se não me engano foi esse o prazo que meu irmão deu, a gente já tem uma resposta do juiz.
Vamos ver no que isso tudo vai dar.
Fala pra ela que vai dar tudo certo, que ela não precisa se preocupar, que Deus se ocupa de tudo, sabe, quando a gente menos espera, ele vem com uma solução pronta, daquelas que a gente menos espera. Sempre foi assim, ele sempre ajudou tanto ela, não vai ser dessa vez que ele vai falhar.
É.
E a Rita tá voltando de vez, semana que vem.
Sério?
Sim, sim. Não tem mais razão pra ela ficar em Vassouras, ela tá muito nova pra ficar socada naquele lugar. Ano passado fui lá, você precisava ver. Eu, que já sou uma mulher velha e não me choco nem me empolgo mais com muita coisa, fiquei muito entediada. Entediada mesmo, sabe? Tinha vezes que nem o rádio pegava direito. Tenho paciência pra isso não. Ainda mais eu, que gosto de ver gente passando pra lá e pra cá, você veja só. Não consegui ficar mui...
Mas ela vai morar na casa de quem?
Ela quem?
A Rita.
A, a Rita, claro. Olha, boa pergunta. Não sei mesmo te dizer. Quem me falou que ela tava voltando foi aquele menino, como é mesmo o nome dele? O...
Você diz aquele menino que fez um filho nela?
É. Esqueci o nome do rap...
Mateus. Não me esqueço nunca.
Mateus! Isso mesmo! Mateus. Então, foi ele que me falou. Acho que ele não deve saber mais coisas não, duvido muito que a Rita queira olhar pra cara dele depois de tanta confusão. Só se ela for dessas mulheres fracas que andam por aí. Mas a Rita, tenho certeza que ela não quer mais saber do Mateus.
É, espero.
Ela nunca mais falou com você?
Nunca mais.
Nunca ligou, nem mandou recado?
Nunca.
Esses anos todos? Puxa, e como é que você tá com isso tudo, meu filho? Quer dizer, eu disse como quem não queria nada sobre a volta dela. Não sabia que ela tinha te esquecido assim tão fácil. Olha, bola pra frente viu, vocês jovens sabem tocar pra frente melhor do que a gente, que não tem mais frente pra olhar. Você, ela, o Mateus, são todos muito novinhos. Você sabe que tem tanta garota bonita por aí querendo ficar com você. Você fez aniversário mês passado não foi? Quantos anos você fez mesmo?
Trinta e um, tia.
Então! Os anos demoram a passar pra vocês, vocês vivem mais do que a gente. E eu digo agora a mesma coisa que eu disse pra sua mãe: Deus sempre tem uma coisa guardada que a gente nem desconfia, nem sonha em ver, mas que aparece logo logo. Confia nisso.
É.
Meu santo Deus, olha quem vem ali! Parece até piada né? Não é que a danada já estava voltando?
Ela tá tão mudada...
É, meu filho, ela não mudou nadinha de nada, você é que se desacostumou a vê-la.
Pode ser...
Deixa a poeira toda baixar, a Glória nem esfriou no caixão ainda. Espera uma semana e vai falar com ela. Deixa com sua tia que eu descubro onde ela está enfiada. Só não vai fazer besteira de novo, pelo amor do nosso senhor Jesus Cristo.
Pode deixar tia, vou lá fora comprar uma coca. Você quer uma também?
Tá tudo bem comigo, fique tranquilo. Nós não sentimos tanta sede como vocês sentem.

(outra foto da série "Antropologia da Face Gloriosa", de Arthur Omar)
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segunda-feira, 26 de julho de 2010
petit bonheur #1
Ela vem ou não vem, Beto? Eu to suando frio aqui, você sabe como eu sou inseguro pra essas coisas.
Não te disse mais de dez vezes que ela ligou essa tarde dando certeza de que viria? Depois não ligou mais, sei lá, mulher tem dessas coisas.
E eu nem tive tempo de tomar um banho decente e trocar de roupa, cara, eu to fedendo a cigarro demais, eu que me acostumei com o cheiro faz tempo não estou me agüentando mais.
Relaxa, cara, ela também fuma, aliás, eu nunca vi uma pessoa fumar tanto. É um atrás do outro, só de ver me dá vontade de parar com essa porra.
Tenta ligar pra ela de novo, vai que ela desistiu, vai que morreu no caminho.
Vai que ela é tão insegura quanto você e tá sentada em alguma mesa ali atrás só nos observando, esperando chegar o momento certo de chegar até aqui. Já digo que se ela estiver mesmo fazendo isso, você tá fodido, mulher não gosta de cara babaca assim, você tá parecendo uma criança fazendo birra, se segura porra.
Garçom, traz outra cerveja.
E vê se traz gelada dessa vez. Cara, olha aquela gata ali sentada no banco mais alto.
Qual delas?
A de blusinha verde. Putz, que mulherão! E toda doce, olha só como ela abre a boca, cumpade, que isso!
Tira o olho que aquela mina sentada na frente é a namorada dela.
Que mané namorada porra! Eu já vi essa garota uma vez, na festa que o Cláudio deu no apartamento dele. Ela chegou lá pras três horas da manhã com um cara muito do esquisito, falou com o Cláudio, ficou no máximo quinze minutos e meteu o pé. Lembra não? Nunca mais esqueci esse rostinho.
É, então acho bom você ir esquecendo de vez, olha lá.
Caralho cara, que merda hein. Essas garotas não devem saber o que é um pau, só pode ser.
É ela?
An?
É ela, porra, ali, entrando?
Porra Beto, é ela sim. Vou apresentar vocês dois e vou no posto da frente comprar cigarro, valeu? Vê se te controla nas calças!
Faz isso e se manda.
Olá meninos, tudo bem?
Fala Gabriela, demorou hein.
Desculpa meninos, eu peguei um trânsito horrível agora, rolou um acidente, não entendi muito bem, não consegui ver, me disseram, ah, um horror, total.
Gabriela, esse é o Beto, acho que eu já falei dele pra você, né?
Humm, acho que sim. Prazer Beto, Gabriela.
Prazer gata, o Arnaldo fala muito de você.
Garçom, traz outra cerveja pra gente aqui e capricha de novo. Galera, eu vou ali rapidinho no posto comprar cigarro e já venho.
Dois Marlboro vermelho, por favor.
Desculpa, Marlboro acabou de acabar.
Ha, ótimo, “acabou de acabar”.
Haha, é.
Me vê dois, an, Camel então.
Você não tem menor não? Eu to sem troco aqui.
Putz, espera um pouco.
Oi, tudo bem?
Tu-tu-d-do. Quer dizer, oi.
Você quer vir numa festinha que a Samanta vai dar hoje, mais tarde?
An, é, claro. Ou melhor, quem é Samanta?
Ela tá ali fora.
Ah, claro. Mas, desculpa, vocês são namoradas né. Não, quer dizer, nada contra, nada a ver, mas pensei que...
Vocês são muito tapados mesmo! Haha. Vêm ou não vem?
Sim, sim, é, claro!
Ótimo então. Oi, com licença, você tem um pedacinho de papel e caneta? Obrigada.
A gente te espera lá então, vai ser bem legal. Se o seu amigo quiser ir também com aquela menina que ele está conversando no bar, serão super bem vindos.
Ok, claro. Desculpa, você tem falado com o Cláudio? Ele deu uma boa sumida.
Tem tempo já que eu não tenho notícias dele. Se você o vir primeiro, fala que mandei um beijo.
Claro, pode deixar, aliás, quantos “claros” eu falei hoje.
Haha, relaxa.
Até mais tarde então.
Um beijo.
Senhor, seu troco.

Não te disse mais de dez vezes que ela ligou essa tarde dando certeza de que viria? Depois não ligou mais, sei lá, mulher tem dessas coisas.
E eu nem tive tempo de tomar um banho decente e trocar de roupa, cara, eu to fedendo a cigarro demais, eu que me acostumei com o cheiro faz tempo não estou me agüentando mais.
Relaxa, cara, ela também fuma, aliás, eu nunca vi uma pessoa fumar tanto. É um atrás do outro, só de ver me dá vontade de parar com essa porra.
Tenta ligar pra ela de novo, vai que ela desistiu, vai que morreu no caminho.
Vai que ela é tão insegura quanto você e tá sentada em alguma mesa ali atrás só nos observando, esperando chegar o momento certo de chegar até aqui. Já digo que se ela estiver mesmo fazendo isso, você tá fodido, mulher não gosta de cara babaca assim, você tá parecendo uma criança fazendo birra, se segura porra.
Garçom, traz outra cerveja.
E vê se traz gelada dessa vez. Cara, olha aquela gata ali sentada no banco mais alto.
Qual delas?
A de blusinha verde. Putz, que mulherão! E toda doce, olha só como ela abre a boca, cumpade, que isso!
Tira o olho que aquela mina sentada na frente é a namorada dela.
Que mané namorada porra! Eu já vi essa garota uma vez, na festa que o Cláudio deu no apartamento dele. Ela chegou lá pras três horas da manhã com um cara muito do esquisito, falou com o Cláudio, ficou no máximo quinze minutos e meteu o pé. Lembra não? Nunca mais esqueci esse rostinho.
É, então acho bom você ir esquecendo de vez, olha lá.
Caralho cara, que merda hein. Essas garotas não devem saber o que é um pau, só pode ser.
É ela?
An?
É ela, porra, ali, entrando?
Porra Beto, é ela sim. Vou apresentar vocês dois e vou no posto da frente comprar cigarro, valeu? Vê se te controla nas calças!
Faz isso e se manda.
Olá meninos, tudo bem?
Fala Gabriela, demorou hein.
Desculpa meninos, eu peguei um trânsito horrível agora, rolou um acidente, não entendi muito bem, não consegui ver, me disseram, ah, um horror, total.
Gabriela, esse é o Beto, acho que eu já falei dele pra você, né?
Humm, acho que sim. Prazer Beto, Gabriela.
Prazer gata, o Arnaldo fala muito de você.
Garçom, traz outra cerveja pra gente aqui e capricha de novo. Galera, eu vou ali rapidinho no posto comprar cigarro e já venho.
Dois Marlboro vermelho, por favor.
Desculpa, Marlboro acabou de acabar.
Ha, ótimo, “acabou de acabar”.
Haha, é.
Me vê dois, an, Camel então.
Você não tem menor não? Eu to sem troco aqui.
Putz, espera um pouco.
Oi, tudo bem?
Tu-tu-d-do. Quer dizer, oi.
Você quer vir numa festinha que a Samanta vai dar hoje, mais tarde?
An, é, claro. Ou melhor, quem é Samanta?
Ela tá ali fora.
Ah, claro. Mas, desculpa, vocês são namoradas né. Não, quer dizer, nada contra, nada a ver, mas pensei que...
Vocês são muito tapados mesmo! Haha. Vêm ou não vem?
Sim, sim, é, claro!
Ótimo então. Oi, com licença, você tem um pedacinho de papel e caneta? Obrigada.
A gente te espera lá então, vai ser bem legal. Se o seu amigo quiser ir também com aquela menina que ele está conversando no bar, serão super bem vindos.
Ok, claro. Desculpa, você tem falado com o Cláudio? Ele deu uma boa sumida.
Tem tempo já que eu não tenho notícias dele. Se você o vir primeiro, fala que mandei um beijo.
Claro, pode deixar, aliás, quantos “claros” eu falei hoje.
Haha, relaxa.
Até mais tarde então.
Um beijo.
Senhor, seu troco.

(foto de Arthur Omar, da série Antropologia da face gloriosa)
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