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segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010
Joana, após aqueles dias em que o mundo parece ter virado de pernas para o ar, não conseguia entender o porquê de Carlos ter anunciado sua decisão de forma tão precipitada: Joana, não te amo mais. Para a sua cabeça, o desamor não podia ser pensado, matutado como quem decide se vai ou não comprar um carro novo ou simplesmente se vai ou não tomar outra xícara de café. Ter sido pega assim, de surpresa, era o que mais a injuriava. Não dava para voltar para a casa da mãe, sua tia havia morrido cinco dias antes e Carlos era o que de mais acalentador ela julgava possuir, uma barreira contra as investidas constantes da solidão, quem em certos momentos de uma vida insiste em sentar-se bem na nossa frente. Viajar, viajar é o que Joana deve fazer. Tornar o sonho de sair sem rumo por aí realidade. O único empecilho real é que os telejornais anunciaram que hoje é dia de chuva forte...
terça-feira, 18 de agosto de 2009
Medicina
Agir costuma ser foda. É incrível como tudo parece sair dos eixos a todo instante. Colocar um cigarro na boca é baixar vertiginosamente minha alegria. Eduardo parece sempre distante. Dois filmes vistos pela metade ontem à tarde, ando sem paciência para qualquer ficção. Hoje no trabalho consegui conversar por um instante com a Márcia, gente fina ela. Acho que é casada há oito anos. Oito. A empresa que arquiva as notas fiscais faliu. Um cara no ônibus entregou a mochila para uma menina segurar. Ela estava sentada. Ele estava em pé. Bonita a menina. O André me ligou para tomarmos um chope na sexta, mas eu não sei não, ele tá muito gordo. Já percebeu como ele tem mau hálito? Não acredito mesmo que aquela garota se estabacou da escada, coitada, deve estar toda arrebentada. Eduardo deve ter me esquecido. Meus cigarros acabaram e confesso que tenho preguiça de descer isso tudo para comprar mais. Vou parar com essa porra. Todo mundo morrendo e essa merda desse governo não deixando a gente se fuder com dignidade. O filme que eu estava vendo ontem era muito chato, não acontecia nada e aquela bosta daquela câmera parada, parece que o diretor tinha dormido. Viado. A Márcia tem tanta caspa sabe, fica com a camisa cheia de pontinhos brancos, muito nojento. Acho o marido dela um tesão. Se ele me olhasse eu dava pra ele na mesa do escritório mesmo, com todo mundo olhando. Meu sonho é trepar com todo mundo me vendo, me aplaudindo, se masturbando enquanto observam cada ponto avançado na minha buceta. Ai esse calor que não passa. A piranha da menina do ônibus só se ofereceu para segurar a bolsa porque estava secando o menino com os olhos quando ele entrou. Eu hein. Molequinho feio, sem graça, de óculos baratinho, um horror. Está na hora de trocar o papel de parede desse... Vi em duas revistas uns papéis lindos, não faço nem ideia do precinho. Acho que não deve ser tão caro. Aqui é pequeno também, não tem muito luxo, como a Isabel sempre fala com os caras. Sumiu, a Isabel. A cirurgia da minha avó é amanhã, preciso ligar para ela. Ser médico é uma coisinha escrota né. A velha com quase noventa anos e eles operando-a do baço. Porra, daqui a pouco vai morrer mesmo, essas coisas não fazem sentido. Eu nunca estudaria para ser médica. Acho que não tenho ninguém para salvar.
sexta-feira, 26 de junho de 2009
Ética
No escritório não havia mais ninguém. À essas horas da noite é difícil encontrar uma viv'alma sequer em todo este edifício. Sei que o centro da cidade fica mais escuro do que já é e não é mesmo seguro ficar por aqui, sendo obrigado a caminhar por essas ruelas sombrias, de chão sempre molhado, até o estacionamento onde todos daqui costumam guardar seus carros. Mas resolvi ficar. Estava cheio de verificações finais a fazer e a segunda-feira não poderia começar com um esporro do Antônio. Só a sombra dele ou então o menor barulho de seus passos já era suficiente para me paralisar. O mais engraçado é que o sujeito sempre foi muito gentil com todos, para não dizer servil, resultado de um espírito costumeiramente antenado com as mais novas prescrições sobre ética no trabalho e em como fazer com que seu modo de tratar bem as pessoas as ajude a serem mais produtivas.
Mas a Clara não me deixava trabalhar em paz. Minha concentração era perdida a cada segundo que eu colocava os olhos sobre aquele retrato ao lado do porta-lápis e nenhuma força vigente no universo me faria esticar as mãos para abaixá-lo ou guardá-lo na gaveta de "material pessoal". Ela nunca mais ia voltar, esta era a única certeza que possuía, não havendo nem filho, nem carreira, nem família, nem doença que a fizesse pensar duas vezes e reparar o erro que havia cometido.
O relógio marcava dez horas e vinte e três minutos. Num rompante de um impulso qualquer, guardei todos os papéis na gaveta de "procedimentos arquivados", peguei meu casaco que tinha deixado na cadeira do Lobo (não me lembro agora porque fiz isto) e saí da sala. Tranquei a porta, dando duas voltas na chave, e desci as escadas que me levavam ao hall do edifício número 14, prédio que trabalho há sete anos.
Mas a Clara não me deixava trabalhar em paz. Minha concentração era perdida a cada segundo que eu colocava os olhos sobre aquele retrato ao lado do porta-lápis e nenhuma força vigente no universo me faria esticar as mãos para abaixá-lo ou guardá-lo na gaveta de "material pessoal". Ela nunca mais ia voltar, esta era a única certeza que possuía, não havendo nem filho, nem carreira, nem família, nem doença que a fizesse pensar duas vezes e reparar o erro que havia cometido.
O relógio marcava dez horas e vinte e três minutos. Num rompante de um impulso qualquer, guardei todos os papéis na gaveta de "procedimentos arquivados", peguei meu casaco que tinha deixado na cadeira do Lobo (não me lembro agora porque fiz isto) e saí da sala. Tranquei a porta, dando duas voltas na chave, e desci as escadas que me levavam ao hall do edifício número 14, prédio que trabalho há sete anos.
pausa para o lanche da tarde
as pernas do pai, afundado no sofá de dois lugares da sala, só poderiam ser duas hastes negras de metal forte, robustos, gélidos. os pêlos eriçados com a notícia dada pelo noticiário da tevê (pensando bem os pelinhos já estavam em pé desde muito antes) pareciam cerdas de aço, de escova para limar objetos duros, gelados também. os músculos do joelho, que na sua cabeça não deveriam ser muitos, apesar dele ter ficado surpreso quando a cristina disse a quantidade de fibras e qualquer outra coisa feita de carne que a gente mobiliza quando sorrimos, se encontravam retesados ao máximo, como se o pai fosse se levantar de supetão, sem a mãe nem ele esperarem, para derrubar a tevê e maldizer com todos os nomes feios que se encontram em todas as línguas do mundo aquela revelação tão inesperada. ouvia até o barulho da explosão do tubo de raios catódicos e já antecipava o susto e o grito fino que precisaria deixar escapar da sua boca miudinha, que já estava aberta há longos minutos. a mãe aparecia para ele fora de foco, longe, mesmo sentada em outro sofá de dois lugares, desta vez marrom, transversal ao sofá do pai. sofá caro. não sei quantos judeus mortos nos campos de concentração, algo em torno de cem milhões, ou seriam cem bilhões. só podia mesmo ser muita gente, gente que não tinha como pensar, gente que ultrapassava toda a quantidade de pessoas que podiam caber num shopping numa véspera de natal, dia de louco, de gente esquisita e que fica mais esquisita ainda nessa época do ano, coisa fora de compreensão. eram nomes complicados que a moça de tailleur vermelho repetia na tevê. em alguma língua bem diferente daquele inglês que o professor enrugado ensinava no colégio, aquele inglês que por mais que ele não soubesse entender, lhe dava a certeza de que não era inglês nem jamais seria, nem nos estados unidos, nem nos filmes em que se falava inglês. foi só quando seu pai caiu, quase de cara na mesa de centro, meu deus!, quase que ele bate com a cabeça direto na mesa de centro, logo ali, a bem poucos centímetros dele, ia ser uma tragédia, mas ele não ia conseguir segurar a vontade de gargalhar bem alto ao ver aquela cena estapafúrdia do pai, um galalau de quatro metros, desmoronando como um edifício bem em cima da mesa de centro velha da sala. a mãe se levantou, tropeçando também e só sentia o cheiro de batata frita bem gordurosa, pouco úmida que servia de aviso para a hora de jantar.
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